#1411

A Quarta Revolução [Industrial] é apresentada como sendo imparável e incontornável. […] A Terceira começou na década de 1960, baseou-se na chamada Revolução Digital, no contínuo e acelerado desenvolvimento das TIC (tecnologias da informação e computação), e permitiu aumentar a automatização da produção nos mais diversos domínios da atividade económica. Finalmente a Quarta Revolução Industrial é uma extensão da terceira mas distingue-se dela em termos de novos horizontes programáticos de automatização, robotização, interoperabilidade, uso de sistemas inteligentes de assistência técnica, decisão descentralizada e troca de informação nas tecnologias de produção de bens e serviços. Os principais domínios de atividade e tecnologias emergentes que irão suportar a Quarta Revolução estão as TIC, inteligência artificial, robótica, internet das coisas, big data, impressão 3D, blockchain, automatização dos veículos automóveis, agricultura de precisão, nanotecnologia, engenharia genética e a biologia sintética.
A grande divulgação da Quarta Revolução Industrial nos media e nos meios empresariais e governamentais de todo o mundo, em particular através do World Economic Forum, é uma iniciativa filantrópica de aviso urbi et orbi sobre a nova direção da competição industrial e económica promovida pelas elites económicas e financeiras dos países com as economias mais avançadas e competitivas do mundo. Na sua génese e evolução não cabe qualquer tipo de atenção sobre o seu impacto, nos próprios países e no resto do mundo, em termos de emprego, coesão social e desigualdades, mas apenas a ambição própria da natureza humana, de manter a liderança e a competitividade desses países. O encadeamento das inovações tecnológicas tem uma dinâmica própria imparável que, para além de criar e satisfazer a procura por novos produtos, serviços e mercados tem também, ao longo do tempo, efeitos sociais, políticos e económicos através de um mundo progressivamente globalizado.
Não é possível travar o progresso da tecnologia porque ela nos deslumbra, diverte, distrai, cativa, aliena e vicia. É ela que dá um sentido linear ao tempo e o acelera. Sem progresso tecnológico a grande maioria das pessoas acharia que o tempo teria parado e que regressaríamos inevitavelmente ao primitivismo do passado.
O avanço da Quarta Revolução Industrial irá tornar um número crescente dos atuais empregos inúteis ou redundantes, devido principalmente ao carater disruptivo das novas tecnologias, e ao avanço da automatização e robotização. Provavelmente haverá novas multidões de desempregados e o próprio conceito social, político e económico de emprego irá transformar-se profundamente. Será provavelmente necessário introduzir o rendimento de cidadania.
[…] haverá criação de emprego nas TIC, serviços profissionais, informação, entretenimento e marketing.
Um dos avanços tecnológicos futuros mais decisivos para promover a automatização e robotização em larga escala será os computadores compreenderem a comunicação entre pessoas, ou seja, tornarem-se virtualmente mais uma pessoa ativa no ambiente de trabalho ou nas nossas casas. A combinação da robótica com a inteligência artificial, que permite aos robots adaptarem-se e reagirem ao que se passa em seu redor, tem a potencialidade de substituir um grande número de empregos e eventualmente transformar a sociedade.
[…] Devido às suas características intrínsecas a Quarta Revolução Industrial promove a substituição do trabalho pelo capital agravando ainda mais a tendência das últimas décadas de aumento das desigualdades. Os empresários que descobrem um produto ou serviço de sucesso enriquecem rapidamente porque com as novas tecnologias os custos marginais por unidade de produção tendem para valores baixos ou próximos de zero e os rendimentos de escala são elevados. Atualmente as empresas procuram avidamente as novas tecnologias porque lhes permitem aumentar a produtividade e baixar os custos marginais de produção e distribuição de bens e serviços, conseguindo assim, reduzir os preços, conquistar mais consumidores e aumentar os lucros. O papel do emprego na distribuição da riqueza, que se consolidou no último século, pode ficar comprometido. As implicações socias e económicas da Quarta Revolução Industrial têm um alto risco de desestabilizar profundamente a sociedade contemporânea, tanto nos países com economias avançadas como no resto do mundo. A probabilidade de tal suceder é muito elevada porque as forças motoras da Quarta Revolução Industrial são as mesmas que dinamizam o atual sistema económico e financeiro. Será provavelmente necessário reformar os conceitos de trabalho, emprego e rendimento.

Filipe Duarte Santos, investigador e professor universitário, jornal Público

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