#1413

Uma das coisas que me apaixona na biografia do filósofo E. M. Cioran (1911-1995) é o seu amor por viagens de bicicleta. […] Ele tinha trocado a Roménia por Paris graças a uma bolsa do Instituto Francês de Bucareste para que escrevesse uma tese de doutoramento sobre [Henri] Bergson, projecto que nunca chegou a concluir. O próprio Cioran conta que o seu orientador, que sabia que ele havia já percorrido a França em bicicleta, lhe terá dito que ‘fazer o tour da França em bicicleta é mais importante que concluir um doutoramento’. […] Simone Boué dizia que Cioran encontrava na bicicleta aquilo que só o trabalho manual lhe dava também: o esvaziamento do estado agudo de consciência em que estava continuamente, uma imersão completa num tipo de movimento inseparável do corpo e, ao mesmo tempo, um reencontro cadenciado com a imobilidade. Quando progressivamente as estradas se foram colonizando pelo tráfico automóvel, cada vez mais massificado, Cioran trocou a bicicleta pelas viagens pedestres. Passava semanas com uma mochila às costas, acampando onde calhava, buscando solidão e sentido, abandono e apagamento. […] No entanto, Cioran sabia, com aquela lucidez terrível que os seus aforismos reflectem, que a desaceleração praticada pelos seus modos de viagem predilectos (em bicicleta e a pé) parecia já arqueológica aos olhos de um século que fumegava velocidade e fazia dela o seu padrão, não só funcional, mas sobretudo moral.

José Tolentino Mendonça, revista do semanário Expresso

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