#1420

Um novo fascismo difuso encontra a sua confirmação num novo regime da mentira que já não é o das máquinas de propaganda do totalitarismo político. É o que se passa com a mentira política, estudada no século XX, de [George] Orwell a Alexandre Koyré, como um produto do “genus totalitário”. As mentiras mais conspícuas, mesmo aquelas que se referem a dados de facto, estão hoje protegidas por um nefasto mas interessante fenómeno: há um ponto, difícil de apreender, em que as coisas se anulam por excesso e produzem o efeito contrário daquele para que foram concebidas. Os políticos podem hoje mentir sem consequências sobre o que disseram ontem ou há pouco tempo não por falta de escrutínio, mas por excesso dele. A multiplicação de microfones, câmaras de filmar, registos jornalísticos, comentários, análises e debates cria uma tal cacofonia e um tão grande teor de opacidade quanto o desejo de transparência que, em princípio, determina essa profusão. A mentira da política moderna solicitava a denúncia lúcida e corajosa; hoje, já não há nada a denunciar porque os denunciantes são factores de obscuridade e acabam por ser peças fundamentais da engrenagem da mentira. Aliás, esta palavra, por estar obrigatoriamente ligada a uma dicotomia cujo segundo termo é a verdade, nem sequer é a mais apropriada para um regime de discurso que em rigor está para além da verdade e da mentira. Entrámos assim num puro jogo, onde alinham várias equipas: os do governo, os da oposição e os que fazem de árbitros, mas estão afinal imersos no jogo. […] A bela utopia da socialização mediática do saber e da opinião vê-se assim sabotada pelos excessos da sua realização.

António Guerreiro, ípsilon

7 responses to “#1420

  1. “Os políticos podem hoje mentir sem consequências sobre o que disseram ontem ou há pouco tempo não por falta de escrutínio, mas por excesso dele” , e aqui entram os atores, nós, que numa espécie de arena, nos deixamos “voltear”, subjugados pela mestria de quem veste o fato e tem a capa do rodopio.
    Bom dia, PedroL

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