#1437

Tamar era diferente de Suzanne – era mais fácil lidar com ela. Não era uma pessoa complicada. Não pedia a minha atenção de uma forma tão próxima, não me impelia a apoiar as suas declarações. Quando queria que eu saísse de um sítio, dizia. E eu andava descontraída, o que não era habitual. Mesmo assim, sentia falta de Suzanne – Suzanne, que eu lembrava como os sonhos de abrir uma porta num quarto esquecido. Tamar era doce e afável, mas o mundo em que se movia assemelhava-se a um televisor: limitado, directo e mundano, com as indicações e as estruturas da normalidade. Pequeno-almoço, almoço, jantar. Não havia uma brecha assustadora entre a vida que vivia e o que pensava dessa vida, da ravina escura que sentia em amiúde em Suzanne, e talvez em mim mesma também. Nenhuma de nós conseguia participar integralmente nos nossos dias, se bem que, mais tarde, Suzanne viesse a participar de uma forma que nunca conseguiria recuperar. Quero dizer que não acreditávamos de maneira nenhuma que aquilo que nos era oferecido fosse suficiente, e Tamar parecia aceitar o mundo de um modo feliz, como o fim da linha. Os seus planos não incluíam fazer algo de diferente – tratava-se apenas de recombinar as mesmas quantidades conhecidas, elucidando uma nova ordem como se a vida fosse a imensa planta de uma sala de espectáculos.

Emma Cline, ‘As Raparigas’

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