#1443

John Maynard Keynes, economista britânico, escreveu no inverno de 1928 um curto artigo sobre o que seria a vida dos netos da sua geração e como poderiam viver em 2028. Poucos meses depois começava a grande recessão de 1929 e, mesmo assim, ele decidiu publicar o seu manifesto, o que ocorreu no ano seguinte. A tese é esta: se em cem anos o nível de vida crescer oito vezes, então os nossos netos poderão trabalhar três horas por dia. Sim, leu bem, Keynes, um Lorde inglês, liberal assumido e vivido, eminência de Cambridge, artífice da gestão económica do Reino Unido durante a guerra, prometia aos netos que viriam a trabalhar quinze horas por semana. Escrevia ele que, com tal crescimento, as necessidades do ‘velho Adão’ não exigiriam mais do que um trabalho residual e os netos poderiam dedicar-se ao lazer, à cultura e à vida, ou seja, viver melhor. […] Poderá ainda dizer-se que, entre nós como noutros países, a cultura social cria uma espécie de busyness, a obsessão de estar ocupado, e que isso favorece tempos longos de trabalho formal e informal, ou de ocupação sob submissão hierárquica, novas formas de trabalho que estendem o dia do escritório para o lar. Sim, mas é também por isso mesmo que a disputa do tempo resume a escolha de como vamos viver e de como se distribui o produto do trabalho. Não é caso para alarme, é só a vida.

Francisco Louçã, jornal Público

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