#1454

[Zygmunt Bauman] Foi um desses pensadores que marcaram uma época, ajudando-nos a decifrar o mundo em que vivemos desde o final do século XX, reflectindo uma “modernidade líquida” em que tudo nos surge fragmentado e desordenado e em que a tentação de criar uma ilusão de vida total à parte espreita a todo o momento. Nas cidades, ou na Internet, podemos procurar refúgios de semelhança, dizia ele, mas ao fazê-lo privamo-nos de entender, negociar e de experimentar com desconhecidos de diferentes condições económicas, costumes, credos ou cores de pele, com os quais na verdade estamos predestinados a viver nestes tempos.

Vitor Belanciano, jornal Público

A ideia de uma sociedade líquida ganhou assim o poder de dar uma configuração à nossa época, tal como [Zygmunt] Bauman a vê: uma época caracterizada pelo triunfo da fluidez, do precário, do transitório, do permeável e do que não se deixa apreender com segurança. Para ele, esta é a condição da sociedade em que vivemos, em todas as suas dimensões, tanto estruturais como super-estruturais, tanto no plano material e económico, como no plano da vida afectiva e intelectual. De certo modo, Bauman, fazendo da noção de liquidez um instrumento de diagnóstico do nosso tempo (e retomando assim a tradição dos diagnósticos sociológicos, à maneira de Simmel), transpôs para a nossa época um princípio semelhante àquele que tinha sido enunciado por Marx e Engels, no Manifesto do Partido Comunista: “tudo o que é sólido dissolve-se no ar”. Nesta pespectiva, a sociedade líquida e tudo aquilo que lhe corresponde (incluindo as manifestações dos sentimentos) dão uma configuração total à nossa época: ela abarca fenómenos tão diferentes como o consumismo, a imigração, a globalização, o desmoronamento das ideologias. E é porventura essa vontade de explicação total que torna a tese de Baumann tão atractiva para um público leigo, mas ao mesmo tempo tão suspeita para os sociólogos.

António Guerreiro, jornal Público

2 responses to “#1454

  1. Por aqui, assim que foi anunciada a morte dele, todos passaram a ser profundos conhecedores do homem. Citaram suas frases, seus pensamentos, lamentaram a perda, mas no dia seguinte, tudo voltou ao mesmo. Acho que a sociedade líquida, está a fazer enorme esforço para se evaporar. Au revoir

    • é verdade Lunna, geralmente é assim: não são propriamente figuras conhecidas do grande público e só se fala delas quando morrem… mas pronto, ao menos que haja uma referência à sua importância, de que forma conntribuiram e pensaram a sociedade 🙂 abraço PedroL

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