shortcut #41: da parede

a mais longa parede de minha casa dá para um cruzamento
para a esquerda, uma avenida perde.se como reticências,
e eu sento.me numa cadeira de baloiço, que oscila ininterrupta e infalível para mais longe e para mais perto na direcção do nascer do sol,
absorto e entranhado e de cabeça cravada no cimento na mais longa parede de minha casa
pintada de cal, quatro postais de destinos exóticos colados, um deles de praia de areia a salgar
recordo.me quando dizias acreditar que a areia é uma colecção de reticências
um rolo fotográfico estende.se tortuoso de um lado ao outro da parede mais longa de minha casa
e ilumina.se com uma lâmpada de amarelo fosforecente
observo.te os gestos a interpretar um caótico teatro de sombras
imagino um braço teu a mergulhar pela janela para trazer o jornal e o pão quente do dia,
uma folha de árvore bamboleante que resiste à gravidade
a mais longa parede de minha casa ostenta um quadro que transcreve os diálogos de quem passa do outro lado
reticências ininterruptas de uma avenida que se perde à lei de sinais de trânsito
e deitados no chão lemos a cidade, o montar e o destruir do puzzle de um trânsito que erra sem parar
olhos de vidro embaciados
é verdade, do outro lado da parede mais longa de minha casa estende.se uma tela de pedra
cuja altura festeja a passagem dos farolins cantantes dos pirilampos – eternas ambulâncias da natureza -,
e a sombra de um candeeiro que ao longo da noite assenta como perfeito decalque
nas linhas do mapa de uma cidade por construir que desenhámos a três mãos
agradeço à mais longa parede de minha casa a protecção
contra tempestades e humidades e humores
e conservar.nos os alimentos e os livros,
aos dois.
ou melhor, aos três, contando com o gato que, por caridade, surge sem aviso
do interior de uma toca da mais longa parede de minha casa

4 responses to “shortcut #41: da parede

  1. I remember the trouble I had in French class reading Rimbaud. I went for the literal translation and was hopelessly lost. Google translation is just as literal, so I lost the poetry of your post. I need a good translator!

    • yeah, I totally understand you… In fact, I prefer to read poetry in the original language because many things may be lost. for example, in this poem I did some language games that are only understood by a portuguese native speaker and it´s impossible to translate. But for me it´s also important to share it among my readers and get their insights, so thank you for commenting Elizabeth! cheers PedroL

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