#1476

No dia em que fiz dezoito anos, eu, a minha mãe e a escrava miriam fomos levar o meu pai e a escrava madalena ao cemitério. O meu pai ia num caixão de mogno. A escrava madalena enrolada num lençol manchado de sangue. Dois homens pagos levantaram o meu pai e levaram-no para o jazigo. Seguimo-los devagar. A minha mãe magoada, a escrava miriam em silêncio e eu despedaçado por dentro, a pensar que tinha talvez perdido tudo. E, na altura, não reparava que a minha mãe sofria o fim absoluto da sua esperança, sofria por ter entregado a vida a quem não a quisera, sofria por tudo para sempre. E, na altura, não reparava, não imaginava sequer, que a minha mãe preferia ter morrido. A minha mãe queria que o meu pai a tivesse chamado e lhe tivesse acertado com dois golpes de machado. A minha mãe queria que o meu pai a tivesse amado como ela, calada e submissa, o amara.

José Luís Peixoto, ‘Uma Casa na Escuridão’

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