#1486

Há poucos meses, em Roterdão, na Holanda, ao entrar na Estação Central da cidade fiquei perplexo pela quase ausência de ruído num espaço público que por norma é barulhento pela combinação de milhares de pessoas, altifalantes, motores ou máquinas. Ali a concepção arquitectónica, o design e a iluminação do espaço atenuam o ruído. Percebe-se que arquitectos, urbanistas ou sonoplastas trabalharam em conjunto, pensando o espaço a partir da acústica e propriedades sonoras. Ali parece existir a consciência que vivemos rodeados de ruído e isso afecta o ambiente, a qualidade da comunicação e a nossa saúde física e psicológica. Essa compreensão é limitada em Portugal. […] Vivemos imersos na cultura do ruído. Não é apenas a música ou a TV ligada. São os motores. Os altifalantes. Os alarmes. Os locais de diversão nocturna até de manhã. O falar alto. Uma cacofonia que se tornou normalidade, talvez porque associamos o rumor ao prazer ou à festa. De alguma forma reproduzimos isso no quotidiano, como se acreditássemos que sendo barulhentos legitimássemos perante os outros que somos bem-sucedidos ou que estamos a desfrutar de algo. […] É como se necessitássemos de som à volta, em todo o lado, a toda a hora, para confirmar que existimos, o que paradoxalmente nos torna indiferentes perante a verdadeira experiência da música.

Vítor Belanciano, jornal Público

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