#1486

Há poucos meses, em Roterdão, na Holanda, ao entrar na Estação Central da cidade fiquei perplexo pela quase ausência de ruído num espaço público que por norma é barulhento pela combinação de milhares de pessoas, altifalantes, motores ou máquinas. Ali a concepção arquitectónica, o design e a iluminação do espaço atenuam o ruído. Percebe-se que arquitectos, urbanistas ou sonoplastas trabalharam em conjunto, pensando o espaço a partir da acústica e propriedades sonoras. Ali parece existir a consciência que vivemos rodeados de ruído e isso afecta o ambiente, a qualidade da comunicação e a nossa saúde física e psicológica. Essa compreensão é limitada em Portugal. […] Vivemos imersos na cultura do ruído. Não é apenas a música ou a TV ligada. São os motores. Os altifalantes. Os alarmes. Os locais de diversão nocturna até de manhã. O falar alto. Uma cacofonia que se tornou normalidade, talvez porque associamos o rumor ao prazer ou à festa. De alguma forma reproduzimos isso no quotidiano, como se acreditássemos que sendo barulhentos legitimássemos perante os outros que somos bem-sucedidos ou que estamos a desfrutar de algo. […] É como se necessitássemos de som à volta, em todo o lado, a toda a hora, para confirmar que existimos, o que paradoxalmente nos torna indiferentes perante a verdadeira experiência da música.

Foi há cerca de um ano, em Roterdão, na Holanda. Quando se entra na estação central de comboios da cidade fica-se perplexo pela quase ausência de ruído num espaço público que por norma é barulhento pela combinação de milhares de pessoas, altifalantes, motores e máquinas. ‘Conheço perfeitamente essa estação’, diz-nos de imediato o crítico de arquitectura, ensaísta e pianista Michael Kimmelman, quando lhe mencionamos a experiência, ‘e entendo perfeitamente o que é que está a descrever porque é um daqueles lugares de passagem onde até apetece ficar. Nitidamente é um desses espaços onde o som foi trabalhado como material arquitectónico. Mas a verdade é que a grande maioria dos arquitectos ainda são pouco sensíveis a trabalhar o som, não o colocando ao nível, por exemplo, da luz, ou de outros materiais visíveis.’ […] Michael Kimmelman não acredita que tenhamos chegado a um ponto de viragem. ‘Pensamos mais hoje em dia sobre o som, mas não de uma forma consciente, precisamente porque ele está lá em todos os momentos do nosso dia. É como se o som se tivesse substituído ao ar que respiramos.’ O som está em todo o lado. Na rua, nos centros comerciais, nos restaurantes, nos estádios de futebol. ‘Nesses lugares, em determinados momentos, cansamo-nos mais facilmente por razões que não conseguimos identificar, mas muitas delas têm a ver com essa omnipresença. É como se estivéssemos submersos numa fadiga sónica.’ […] A luz, por exemplo, é algo em que os arquitectos reflectem de forma consciente. É matéria que pode ser trabalhada. “Não se pode construir ou criar luz, mas pode-se controlá-la, organizá-la, moldá-la. Quando estamos num lugar com uma luz singular, o sentimento de envolvimento cria a sensação de que o espaço nos imerge. Creio que o trabalho com o som deve ir nessa mesma direcção.’ […] Uma coisa é certa, segundo Michael Kimmelman: ‘Há cem anos ninguém falava da qualidade do ar. Se alguém o fizesse era apelidado de ridículo. Agora chegou a hora da manipulação do som, não apenas para nos resguardarmos, mas para ser algo prazenteiro.’

Vítor Belanciano, jornal Público

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