#1490

Nas semanas antes de vir, fui vendo a previsão do tempo para Cartagena das Índias. Todos os dias aparecia uma nuvem com um trovão. Durante um mês, sempre aquela nuvem. Bogotá, Medellin tinham sol, chuva, dependia. Entretanto, Cartagena estava sempre acima de trinta graus, com sensação térmica sempre acima de quarenta, e aquela nuvem não variava, todos os dias igual. Ao chegar entendi porquê: não varia dia a dia porque varia hora a hora, e rua a rua. Impossível prever o tempo numa cidade onde às sete da manhã o sol queima, e às duas da tarde o céu abre por cima de uma praça, enquanto por cima de outra o sol continua a queimar. […] Cheguei de noite a Cartagena, então só na manhã seguinte vi onde estava: a minha janela dava para uma praça triangular que agora se chama Plaza de los Coches. […] Agora, entre as arcadas e o pátio, há festa até ao amanhecer todos os dias, salsa, baile, batuque. Ao amanhecer, vêm chinelando os primeiros vendedores, naquela moleza em que às seis da manhã já faz demasiado calor, porque nunca chegou a fazer frio. E, a meio da manhã, já as arcadas, chamadas Portal de los Dulces, brilham de potes de vidro cheios de casadillas, panderos, merengues, tamarindos, rueditas de leche e cocadas de toda a espécie, mani, piña, conchitas, guayaba, arequipe. Logo alguém contará que aquela cena assim e assim do Amor em Tempos de Cólera se passa aqui, porque, claro, Gabo é o grande espírito da cidade. Aqui manteve casa até morrer, indo e vindo do México, onde morreu. Aqui chegou quando não tinha dinheiro nem para uma pensão barata, e dormiu num banco de jardim, vantagem do Caribe. Aqui foi jornalista, e escreveu alguns dos livros que um pouco por toda a parte tanta gente leu. Cartagena é aquela cidade onde alguém sempre vai contar alguma história sobre Gabriel Gabo García Márquez. Como aquela vez em que ele achou a casa onde ia situar uns amores no livro, pediu para ir lá por uns dias tomar notas, tanto gostou que pensou comprá-la, mas deixou passar, e quando foi tentar de novo, já o livro tinha saído, o preço tinha centuplicado porque era a casa onde tinha sido escrito ‘Amor em Tempos de Cólera’.

Alexandra Lucas Coelho, revista P2

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