#1678

O culto do poder faz do poder um ídolo, qualquer que ele seja. Torna o domínio a suposta fonte de felicidade e de sentido, reduzindo a isso o horizonte de significação da vida.

[…]

O amor não é um estado de posse, mas de desejo incessante da verdade, da beleza e da bondade que lhe faltam. Quando amamos o que se passa? Ocorre isto: o amor deseja os bens que não tem em si. A vocação do que ama é assim uma vocação mendicante: enceta os seus caminhos no desconforto das mãos vazias; dorme ao relento; veste-se de forma andrajosa e insuficiente como um mendigo. […] Na contemporaneidade, Simone Weil revisita o discurso platónico do desejo em chave mística. Ela repete que o desejo é uma enganadora armadilha quando se liga a objectos finitos, pois estes depressa se tornam ídolos, erguidos no lugar do absoluto. Mas garante que o desejo é bom enquanto contém uma energia que se deixa orientar para o alto, para o divino. Nesse sentido, ela propõe uma educação do desejo (uma verdadeira educação pela sede), que nos torne vigilantes em relação às tentações de substituição, ensinando-nos, sim, a permanecer na falta, na incompletude, no vazio e na espera.

José Tolentino Mendonça, revista do semanário Expresso

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