#1692

O telhado tem feito magia. Arregacei as mangas em dias de sol e plantei no telhado laranjeiras, pessegueiros, bananeiras, figueiras, pereiras, ameixoeiras, diospireiros, nespereiras, papiros, loureiros, mirtios e uma borracheira. Coloquei duas espreguiçadeiras. […] Se na juventude transformamos o mundo, com a velhice, ou melhor, na pré-velhice, começamos a compreender o mundo. […] É lá [no telhado] que me refugio. Bem no alto, mais perto do céu. Falo com as árvores e elas retribuem com o fruto. Rego as raízes e elas dão sinal de vida na Primavera. Mas do que mais gosto é da noite. O silêncio. Enquanto os vizinhos dormem para retemperarem as forças para a manhã seguinte, eu deito-me numa espreguiçadeira e fico a contemplar as estrelas, a seguir os aviões e a imaginar quem vai lá dentro, de onde e para onde vão. De quando em vez, um gato vadio olha para mim desconfiado, um morcego ronda as paredes à procura de alimento e vozes vagueiam no passeio. Ali fico mergulhado em pensamentos. No meu telhado, no meu altar, ornamentado com árvores, olho o céu de barriga para o ar. Estranha forma de rezar. Numa espreguiçadeira. […] E o céu está estrelado. Bonito. Só existe um céu. O céu é de todos e para todos. Não é fé, é convicção.

Adriano Miranda, fotojornalista, jornal Público

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