#1784

A geografia é sempre imaginária. E se bem que estou a caminhar por Buenos Aires, não estou a caminhar por aquela rua tal como ela é hoje, mas como a senti quando era adolescente.

[…]

Todos temos essa experiência, de desembalar coisas e encontrar-nos com quem um dia fomos quando tivemos esses encontros. Ao mesmo tempo, sou consciente de que a memória é um acto criativo e não documental. Por isso, ao dizer que me lembro do dia em que descobri um livro e o li pela primeira vez, estou a inventar uma recordação sobre outra antes inventada. As recordações são palimpsestos que não nos permitem alcançar a memória original nem saber quão longe estamos dela. [No caso dos livros] são a corporalidade da memória. O livro em si mesmo é um objecto inerte – papel, tinta, cola. Mas é através dele que as recordações começam a surgir, como um acto mágico em que se utiliza um talismã para convocar os espíritos. E aparece sempre um espírito diferente, um fantasma inesperado de que não nos lembrávamos ou que estava lá e nem o sabíamos.

Alberto Manguel, escritor, revista do semanário Expresso

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s