#1788

‘Criar eventos’ é um serviço de relações sociais e públicas que o Facebook presta a quem queira publicitar acontecimentos. […] Aquilo que virá a realizar-se, colocando as pessoas em presença, é apenas um acontecimento diferido daquilo que se passou antes, que foi o anúncio, o acto de tornar público. Muitas vezes, ‘criar o evento’ dispensaria até que ele se realizasse, se não houvesse necessidade de manter sólida a relação fiduciária com uma realidade que, neste processo, acaba por se tornar algo tão abstracto como o acontecimento virtual que a ‘criou’. Por isso, aliás, é que há sempre um enorme desvio entre o número de pessoas que prometem ir ao ‘evento’ e o número muito menor daqueles que de facto acabam por comparecer. […] Este sistema permite contabilizar facilmente as adesões e os índices de circulação, mas já não consegue contabilizar as rejeições e os seus efeitos. Um exemplo: aquele tipo de artigos que nos jornais online garantem muitos clicks e comentários (há mesmo quem procure este efeito em tudo o que escreve) têm um sucesso mensurável que entra nos cálculos editoriais, mas fica sempre por medir quantos leitores o jornal afasta de uma vez, ou progressivamente, dessa maneira. Por isso é que a contagem das audiências, “a ditadura do audimat”, como se diz em França, revela apenas a parte iluminada da realidade, mas nunca a sua sombra.

António Guerreiro, ipsilon

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