#1795

[A ideia de] ser observada perturbou-me: as janelas dos prédios em frente e as pessoas que via nas varandas a fumar, a conversar, a tomar banhos de sol, a olhar o Tejo, eram uma projecção da minha cinematografia lisboeta, para serem vistas e não para me verem: eu era sujeito daquela paisagem. Confrontar-me com alguém que me dizia eu vejo-te, decifro-te e inscrevi-te na minha história fazia de mim actriz de um drama desconhecido. […] Era sobretudo ele a falar. Respondia na medida necessária para que não sentisse que eu não estava ali, que não o lia, que não queria saber. Havia um carácter conceptual, teórico, nas nossas trocas, como se estivéssemos a trabalhar no guião de um filme. Na verdade, de um documentário: um documentário sobre a forma como nos ligamos com os outros, sobre a ideia de vizinhança, de cruzamento, de como temos para cada pessoa de que nos apercebemos uma personagem desenhada por nós, e de vez em quando sentimos a necessidade de lha dizer, de testar a nossa ficção. […] O que é uma cidade sem amor, ou, o que é mesmo, sem a ficção do amor?

Fernanda Câncio, Diário de Notícias

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