#1822

A carretera central de Cuba, com os seus 1250 quilómetros a unirem os dois extremos do país, é um espelho da vida nacional, com todas as suas vicissitudes passadas e presentes, as suas urgências e lentidões, os seus dramas e alegrias, os seus problemas e as suas soluções. Não é uma estrada panorâmica no sentido turístico do termo, mas é uma estrada com surpreendentes vistas sobre um povo que dá vontade de abraçar logo ao primeiro encontro, como se tivéssemos dado de caras com o amigo imaginário da infância. […] Após 2000 quilómetros de estrada, um condutor ou dá em doido ou dá em comunista, tanto os imprevistos e tantos os painéis com slogans revolucionários patrióticos. Mas a atenção não está virada para os outdoors nas bermas da estrada – o olhar, sempre à cata dos quase inexistentes sinais de trânsito que indiquem a direcção certa, está concentrado nas demasiadas pessoas, animais, carroças, bicicletas, triciclos, bicitáxis, motos e buracos que surgem de onde menos se espera. […] Os painéis com citações revolucionárias, patrióticas e anti-imperialistas fazem parte integrante da paisagem rodoviária e surgem aos olhos do turista temporariamente desfasados de uma realidade que se vai desfiando nas paragens, nas estadias, nas visitas às cidades, nos quartos alugados, nos paladares (restaurantes em casas particulares).

Miguel Calado Lopes, revista do semanário Expresso

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