#1871

Em depoimento, Andris Nelsons sugere ter prestado especial atenção à caracterização fisionómica de Shostakovich: ‘Era uma pessoa nervosa. Quando vemos o seu aspecto, em fotografias, e depois o confrontamos com a música que escreveu, há ali qualquer coisa que não bate certo, que não se equivale’. Muito pelo contrário – e nem será preciso citar Aristóteles de ‘Analíticos Anteriores’, por exemplo. Aliás, a má catadura de Shostakovich em tempo algum disfarçava o profundo desconforto que sentia, com aquele jeito tímido e tenso constantemente traído por movimentos involuntários – as mãos que não paravam quietas, o corpo que parecia encolher-se para caber dentro do fato, óculos que de tão graduados dificultavam o contacto visual, remoinhos que desalinhavam um penteado em tudo o resto convencional. Além daquela expressão que tinha colada ao rosto: algo como raiva, receio e ressentimento misturados.

João Santos, revista do semanário Expresso

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