shortcut #53: do doce

idealizo uma ferida desarrumada entre desmaios
ascese de sangue em erupção de corpo pescado
por reanimar por despojar
a partir de qualquer encenação precária de mim
aspiro-me artificial mecânica dissoluta
aluna de um sem-número de mestres e conspirações, devoções e atentados
chamam-me madame Clemenceau
borrifo de chuva doce os canteiros de buganvílias perpendiculares aos caixotes de lixo ‘não reciclável’ da Place de la Liberté
acompanho o rodar dos ponteiros do relógio na sala de refeições
minuto a minuto, cada ponteiro avança para tornear ao início, uma outra vez antes de prosseguir
repetidamente, o jantar é servido à hora definida no contrato que rubriquei sobreanestesiada
a comida varia, sim, porém escuso-me a mastigar as espinhas dos peixes autóctones
opto por caramelizar as batatas (diariamente) e os vegetais:
segunda, quinta e sábado, bróculos; terça e sexta, cenouras; quarta e domingo, cebolas
arrasto-me entre a sobremesa que culmina a refeição como o agricultor que saliva o momento da colheita
confirmo a hora nos ponteiros do relógio
afasto a cadeira da mesa, levanto-me e peregrino o tabuleiro
já sei que amanhã, mesmo sendo sábado, continuarei com a sobreposição da cebola na batata a saborear-me na boca
agradeço à cozinheira com orelhas da minnie e dirijo-me para o quarto.
à janela, espero o sono noite fora
excelentíssimo senhor presidente das repúblicas,
o isco de espinhas doces é, desde o século XIII, o mais bem sucedido engodo às criaturas do Penfeld

depoente Noémie Boichot, interna nº 23, asilo de Brest, dezembro de 2018

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