cartas a Y #2

Akureyri, 16 de janeiro de 2019

Querida Y,
Sabes quando o tempo brinca connosco? Esconde-se e revela-se quando quer, como a flor que cresce por si, autónoma. Este momento – o agora – é ubíquo, pois se te estou a escrever e se tu estás a ler. É como a origem da bifurcação.

Hoje, durante a caminhada matinal, descobri que a rua por que erro há anos revela-se-me outra contanto que percorra o passeio oposto: os prédios têm novas matemáticas e alturas; as palavras são expressas como que por estrangeirados de pronúncia díspar; e o vento, esse impulsionador das marés, enfrenta o viandante sem temor nem pudor.

Por conseguinte, não estranharás quando te confidenciar que me baralhei a caminho da praia. Perdi-me até entrar mar adentro, de onde te escrevo e tempero esta carta de sal. Respira-a querida Y, aí tão longe, no centro da terra, onde os poetas peregrinam para ser enterrados.

Esse deserto onde repousam as mais daninhas das ervas e onde envenenam os mais mortíferos dos frutos. Desterro onde só tu justificarás a minha presença (será que algum dia??…) e para onde comunico os meus mais sinceros cumprimentos, a ti, minha amada, à tua adorada tia e ao carteiro que te entrega (no momento que, quando for, será o certo) tamanha maresia.

Beijinhos do sempiterno teu,
Mário C. Brum

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s