#1922

O animal humano é uma constante excitação, uma fome de tempo e eternidade. […] Na cidade perde-se muito tempo, como se ouve dizer, nos transportes, nas filas, nas salas de espera, retire a senha e aguarde a sua vez, o número que ligou não está disponível, tente de novo ou deixe mensagem, ti, ri, ti, ti. O tempo ganho é o tempo de uma tarefa retribuída, o tempo de uma conversa que resolveu um assunto encalhado, o tempo em que a máquina está a maquinar. Enquanto houver música, há tempo e o tempo passado num silêncio, é uma pausa. Se não se pensarem qualificativos para o tempo, a temática simplifica-se. Equacionar o movimento aparente do sol ou a cadência monótona dos relógios entre duas categorias, ganhar ou perder tempo, é um cálculo muito limitativo. Tão inadequado que nem serve para aquelas minúsculas sementes das ervas do deserto que adormecem anos a fio para, subitamente, depois de um aguaceiro, germinarem, florirem e gerarem outras sementes para quando voltar a chover, voltar a haver flores. Se o racional disto fosse o utilitarismo binário dos ganhos e das perdas de tempo, ficaria sem se perceber que tempo é este da planta insignificante, se é produzir sementes, esperar ou germinar. Deve ser antes a garantia do retorno.

Álvaro Domingos, geógrafo e professor universitário, jornal Público

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