#1928

Desde os nove anos que Walter Pitts [lógico e cientista] esconde o fio dos seus dias nesta fortaleza de papel. Come livros, namora livros, reza neles. Os livros são a sua pomba de obra e graça do Espírito Santo: põem-no a falar línguas. Em três anos, aprendeu latim e grego. E mais duas línguas vivas: matemática e lógica. […] Clandestino, militante, lê e anota, faça lua ou sol, aquela alcantilada serra de papel. […] Pitts fez da lógica e da matemática a sua cruz salvífica. Fugiu de casa aos 15 e deixou-se andar, sem abrigo, pela Universidade de Chicago. Criaria um modelo artificial para um neurónio biológico, desencadeando uma revolução cognitiva, das neurociências à inteligência artificial. Não tenho espaço para explicar, mas por causa de uma rã, morreu como um revolucionário, deprimido e encharcado em copos.

Manuel S. Fonseca, revista do semanário Expresso

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