#1949

Num regresso a Lisboa, vou de comboio e leio um livrinho de Agustina Bessa-Luís sobre comboios. […] Para Agustina, o comboio equivale à província, ou à sua memória da província: os caixeiros-viajantes, os padres, os estudantes em férias, os contrabandistas, caçadores com os cães, almas snobes, almas sensatas, almas festivas, pessoas que lêem as ‘Décadas’ de João de Barros ou comem requeijão, gente no tejadilho até, como nas imagens da Índia que todos já vimos. […] O princípio do prazer a que o comboio obedece é o do movimento, mas também o do sono, o sono colectivo de tanta gente, quase uma orgia, diz Agustina. Nunca tinha encontrado uma definição assim dos comboios: ‘Sonos em movimento’. Um sono que é descanso e sonho, amnésia e fantasia, a máquina mecânica e a máquina que é o corpo em movimento perpétuo, através de cidades e bosques e descampados, numa viagem em que o mais importante não é chegar ao destino.

Pedro Mexia, revista do semanário Expresso

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