#2012

Lembrá-lo [José Manuel Joly Braga Santos] equivale a escancarar uma arca de segredos. Recordar a figura frágil de óculos redondos que descia o Chiado a gesticular, dirigindo uma orquestra imaginária. Ou o homem que ficava absorto de um momento para o outro, habitando uma realidade paralela, quando uma melodia lhe atravessava o pensamento. Ele era o compositor que um dia encostou um papel à parede para escrever uma ideia e a polícia deteve por vandalismo na esquadra do Rossio. Era aquele que cantava no elétrico e apoiava um pedaço de folha nas costas do passageiro da frente para ‘aquele’ compasso não lhe fugir. O espectador do São Carlos que ia para o ‘galinheiro’, onde os bilhetes eram mais baratos, e uma noite trepou a murada mesmo por cima do camarote real para contrariar os efeitos da miopia. O pai que voltava com as filhas Piedade e Leonor — as suas “maravilhas pequeninas” — do Conservatório, parando aqui e ali para um dedo de conversa com amigos. E que de repente começava a correr, apressado para chegar a casa, esquecendo as meninas, que, conhecedoras deste tipo de incidentes, sabiam que o pai aguardava por elas à entrada do metro. ‘O meu pai vivia na música, não estava aqui na terra’, diz Piedade Braga Santos, a primogénita, ao Expresso. Era distraído e desajeitado para tudo o que não tivesse a ver com esse mundo e exímio em tudo o que lhe dizia respeito. Construía as obras na cabeça, elaborando mentalmente cada peça do imenso puzzle orquestral, apenas apontando as reflexões num caderninho. […] Não era raro, para quem conheceu Joly, ouvi-lo declamar, do nada, Cesário Verde, Antero de Quental ou Luís de Camões.

Luciana Leiderfarb, revista do semanário Expresso

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