#2016

Não é nada do outro mundo tropeçar no Irão com um taxista bem disposto e palrador. Este é um tipo truculento e mil e uma vezes grato pela presença do estrangeiro. […] Para que não haja dúvidas, solta o volante do velho Paikan e aperta-me com força a bochecha que está mais à mão. […] Aos iranianos parece importar sobremaneira o que pensa o viajante sobre o país e a sua gente. O forasteiro é um enviado de Deus, tal como rezam versos da tradição corânica e, porventura, preceitos da hospitalidade persa. […] Nesta república islâmica, a solidão está proscrita, sitiada pela solicitude endémica da gente persa, que recebe o estrangeiro como se fora um herói regressado do ventre de uma baleia. […] Haverá certamente, por uma secreta alquimia que só deuses e magos sabem explicar, uma correspondência entre o extraordinário trato afável da gente iraniana e os belos azulejos das mesquitas, a arquitectura dos palácios, os tecidos e os tapetes persas, a cerâmica e a poesia de Hafez, Rumi e Khayyam, a água de rosas da doçaria, a delicada beleza dos instrumentos musicais, as composições clássicas de Mohammad Reza Lofti e de Davood Azad.

Humberto Lopes, Fugas

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s