#2065

Existe na portagem da Ponte 25 de Abril [em Almada] um senhor portageiro que já é famoso. […] Este senhor chama-se Samuel e sempre, mas mesmo sempre, atende quem passa com um sorriso rasgado, um bom dia iluminado e mão ao peito, enquanto diz: ‘Olá! Está tão linda! Já ganhei o dia!…’. Despede-se depois como quem se despede de um grande amigo, e nada do que diz ou faz soa a falso ou ensaiado. […] Esta história faz pensar num aspecto: por que razão ficamos todos tão estupefactos perante esta abordagem de um trabalhador das portagens? Estupefactos pela positiva, entenda-se […], porque não estamos nada à espera desta recepção quando esticamos o cartão ou o dinheiro. […] Estaremos a ficar desabituados dos sorrisos? De tal forma desabituados que quando alguém nos sorri de forma inesperada reagimos assim? Com homenagens nas redes sociais e nas páginas dos jornais? Que sociedade é esta em que aceitamos (pior, esperamos) a ausência de um sorriso? […] E chegados aos elogios, outra questão se impõe. Quando foi a última vez que elogiámos alguém só porque sim? Um elogio sincero, sem qualquer tipo de manipulação ou agenda oculta?

Rute Agulhas, psicóloga e docente universitária, jornal Público

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