#2073

Nápoles agarra-nos pelas entranhas e cola-se a todos os sentidos com tremenda ferocidade. A meio de Agosto, o calor e a humidade acentuam esse abraço visceral da cidade, que faz cair sobre nós uma realidade sem concessões feita de ruas intrincadas, uma expressividade física que grita em todas as esquinas, um ritmo frenético que nos arremessa numa vertigem para logo nos amparar com a sua integridade e maneira muito própria de ser. É um organismo vivo que pulsa continuamente. Vamos já dizer as coisas como são: Nápoles não é o protótipo da cidade turística de postal. É feia, suja a roçar o infecto, esconsa, labiríntica e escura. Está também longe, muito longe, de encabeçar a lista de destinos facilmente visitáveis: é complicada, caótica, bruta e disfuncional. E no entanto transpira uma verdade de que todos, sem excepção, parecem comungar. Estende-nos uma genuína bondade do cimo da sua altivez só alcançável àqueles que nada escondem sobre o que são e para o que ali estão. Por debaixo do sarro assoma uma elegância e nobreza antigas. No meio das suas ruas de portas abertas acolhe-nos uma beleza despudorada. […] Em Nápoles […] parece que toda a cidade é habitada por uma única e alargada família. Todos falam e exprimem-se da mesma maneira. Nápoles é pobre e é popular. A rua é onde tudo acontece e as casas são a sua extensão, sempre de portas abertas, numa proximidade que tanto raia a promiscuidade como nos faz sentir gratos e reverentes perante a ternura dos quadros que vislumbramos de soslaio. Os napolitanos não têm pejo nenhum em fazer-se notar e partilham com a comunidade os momentos mais importantes da vida. Afixam cartazes quando alguém morre e colocam fotografias dos falecidos nos inúmeros nichos religiosos kitsch espalhados pela cidade. Lançam valentes fogos-de-artifício de cada vez que alguém festeja um aniversário. Comunicam e insultam-se com papelinhos afixados no interior dos prédios e na rua. Penduram gigantes chupetas e laçarotes de peluche nos portões para celebrar o nascimento de mais um filho.

Bruno Ramos, fugas

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