#2097

Às vezes a gente lê ou faz coisas e depois pronto, passou. Mas são esses toquezinhos aqui e ali que nos vão formando. Pergunto sempre: ‘O que somos nós senão um agregado de mil coisas?’ Não há eu, somos tudo à la fois. Às vezes pergunto: ‘Mas foste tu que escolheste o sítio para nascer? Foste tu que escolheste o pai e a mãe?’ Não, a gente tem o pai e a mãe que tem. Nasci aqui, mas não fui eu que escolhi nascer aqui. Nasci. O que somos senão um agregadozinho no meio disto tudo? Somos tudo e somos nada. E isso é fundamental para a gente não estar agarrada a nada. As pessoas pensam que são qualquer coisa. Mas depois vão para a escola e aprendem. E depois há um tio ou uma tia, há uma paisagem que também entra em nós. E o que vai entrando também é conforme o que já temos dentro. É assim que a gente se vai formando. E somos isto que está aqui, mas não somos nada de especial. Somos um agregado de causas e efeitos. Vamo-nos construindo. 

[E vamo-nos transformando]. Tudo se transforma. É preciso ir ver as plantas. Viramos a terra. É tudo transformação. É como aquela frase [de Antoine Lavoisier]: ‘Nada se perde, tudo se transforma’. Uma árvore pode cair ao chão e depois o que fica? O musgo. E depois vira terra. Podemos virar terra mas não desaparecemos. Para onde é que vai? São tudo invenções, a ‘eternidade’ e mais aquilo e mais aqueloutro. Digo sempre ao meu ajudante no jardim: ‘Vamos ajudar o satélite. Vamos ajudar o planeta.’ Mondar a erva e regar é ajudar o planeta.

[…] Acho que é bonito isto de as coisas na vida se irem transformando, irem dando outras. Continua-se a respirar. No fundo é respirar, respirar a sua respiração. Há uma coisa de que gosto muito de dizer aos pequenos, e aos grandes também, é uma frase pequenina de um sábio. Há coisas que nunca saem de dentro de ti, como esta frase que tem mais de mil anos: ‘Caminha onde o coração te leva.’ Não é ‘para onde ele te leva.’ É ‘vai à tua maneira.’. É ‘segue à tua maneira.’ […] E eu acho que tenho feito isso, tenho feito à minha maneira. A arte e a casa e o jardim e mais isto e mais aquilo, é tudo respirar. É respirar à sua maneira. Não é o caminho, por isso depois, o caminho… Como é que a gente respira?

Lourdes Castro, artista, revista do semanário Expresso

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