#2111

O comboio rolava entre o aeroporto e a cidade, carregado de gente carregada. […] Ao lado da linha férrea, a paisagem deslizava lentamente, esverdeada da primavera e com as folhas húmidas da geada nocturna. Não havia muito para ver, a paisagem deslizava igual de um lado e do outro, árvores e arbustos, casas entremeadas nas árvores, com os tijolos à vista ou tinta branca desvanecida. De vez em quando, a paisagem pós-industrial que hoje rodeia as grandes cidades, restos de uma civilização desaparecida. No comboio pesava o silêncio porque todas as cabeças e mãos estavam ocupadas com os telemóveis, a ler mensagens, enviar mensagens, receber mensagens, na solidão criativa do mundo virtual onde resolvemos habitar, trocando-o pela realidade. A realidade é insuportável e nesse mundo temos amigos que escasseiam no outro.

Clara Ferreira Alves, revista do semanário Expresso

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