#2116

Temos de conhecer muitas cidades, muitas pessoas, temos de conhecer os animais, como é que os pássaros voam e o gesticular das flores quando desabrocham pela manhã. Temos de saber recordar em estradas desconhecidas, ter encontros desconhecidos e despedidas que já se aguardavam. Acidentes de infância por explicar. pais que tivemos de magoar apesar de nos terem dado algumas alegrias que não alcançámos. Doenças infantis que deram início às mais profundas transformações. Dias fechado no quarto e manhãs na praia. Noites de viagem. Temos de ter memórias de noites de amor, que nenhuma foi igual. Gritos de mulheres a parir, e de mulheres a dormir na cama dos filhos. Mas também devemos aprender a ficar ao lado de quem está a morrer e ficarmos sentados ao lado do caixão, com a janela aberta e os ruídos na sala. Mas não basta ter memórias. É preciso esquecê-las, quando são demasiadas. E ter paciência, para que voltem outra vez.

Rainer Maria Rilke, ‘Os cadernos de Malte Laurids Brigge’

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